quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O dia em que entrevistei Eusébio

Já escrevi no twitter tempos atrás. Mas, aqui, em texto inteiro, dividirei com vocês a minha história com Eusébio.
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Era 28 de outubro de 2007. Eu e o cinegrafista Marcos Correa gravávamos no José Alvalade, estádio do Sporting, quando o telefone tocou.

Vasco, garçom do Restaurante Tia Matilde, informava, agitado:

- O Eusébio já está a vossa espera.

Sem atender a ligações em casa, o jeito de tentar uma entrevista com o ex jogador era indo aonde ele mais frequentava.

Dia sim, dia também, Eusébio ia tomar suas doses de 12 anos no Tia Matilde.

Almoçamos lá todos os dias, por uma semana, enquanto produzíamos uma série para o Esporte Espetacular.

Nada de Eusébio aparecer. O garçom acabou virando nosso informante, um produtor informal. Deu certo.

Quando, enfim, Eusébio apareceu, Vasco o convenceu a falar. Mas tínhamos que nos apressar.
Eu e Marquinhos interrompemos as gravações no José Alvalade e rumamos pro Tia Matilde. Não tínhamos GPS, nem Google Maps, Waze, essas coisas que salvam vidas.

Tensão pelas ruas de Lisboa. Quem tem boca vai ao Tia Matilde. Fomos perguntando a um e a outro quando os sinais fechavam. Num deles, uma van de pet shop ao nosso lado. Marquinhos baixou o vidro e mandou:

- Onde fica o Tia Matilde?

E o sujeito:

- Ora, basta me seguir.

Salvação. Antes de partir, quis saber, para agradecer:

- Como é seu nome?

- Ivo.

Vá entender. O anjo da guarda português tem o mesmo nome do meu pai.

Mesmo com a ajuda providencial, chegamos ao Tia Matilde 15 minutos depois do previsto.

- Olá, Eusébio, nos desculpe pelo atraso. É que...

Ele interrompeu minhas explicações, após um longo gole:

- Ah, se fosse o Pelé, será mesmo que o esperariam? Cá fiquei, mas tenho apenas 10 minutos pra vocês.

A luz bacana, o set ideal, ficaram pra trás. Marquinhos meteu o rec e lá fui para minha entrevista relâmpago.

Pelé x Maradona, Copa de 66, Otto Glória, Eusébio e o Benfica, Felipão na seleção de Portugal, CR7... daria tempo para todas as perguntas?

Vasco teve que repor o gelo, as doses e os pratos com queijo trasmontano e fatias de pata negra repetidas vezes.

Os assuntos deixavam Eusébio como nos tempos de gramado, à vontade. A entrevista durou uma hora e meia.

Por fim, demos a ele uma camisa da seleção brasileira, a 9 de Ronaldo.

Agradeceu, sorriu, e partiu, após gritar para Vasco: - A fatura é por minha conta!

Foi assim a minha história com o 'Pantera Negra', o 'King', o 'Pelé português', um dos maiores do futebol mundial.

Ah, a resposta de Eusébio para a clássica pergunta, quem foi melhor: Maradona ou Pelé, não nos favorece.

- Foi o argentino! Mas não Maradona. Melhor que os dois, asseguro, foi Alfredo Di Stéfano.


P.S. A camisa 9 da seleção, novinha em folha, ainda com etiqueta, era do amigo Tiago Medeiros. Presente da mulher, Clara. Ele só queria o autógrafo de Eusébio para por num quadro na parede de casa. Ficou sem a assinatura. E sem a camisa.

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